terça-feira, 10 de abril de 2012
sexta-feira, 30 de março de 2012
A HISTÓRIA DE HELENA
Seu Antônio carrega o corpo da filha Helena numa mala de couro, pelas estradas que cruzam o sertão do Ceará. A poeira e o Sol ressecaram a pele do rosto, embaçaram os olhos e partiram os lábios do pai que chora todos os dias ao lado da mala onde mora a filha sem vida . Estórias da zona rural ou delírio? Nos finais de tarde, seu Antônio abre a mala e joga água do açude no corpo de Helena, na esperança de recriar movimentos, fazendo travesseiros e cobertores de folhas e galhos do Outono. As árvores não existem mais e a paisagem não encanta o velho pai que tem ferimentos nas palmas das mãos, dores no peito e cicatrizes na alma. Instantes que doem no corpo e dilaceram a dignidade. Aos que perguntam o que tem na mala, seu Antônio responde que é um tesouro preso ao silêncio que vive no quarto dos fundos de uma casa abandonada. À noite, quando as estrelas brilham no céu que parece próximo e os fantasmas dançam e cantam para Seu Antônio, Helena salta da mala e beija o pai com os lábios sujos de saudade, e grita ao redor da fogueira que esquenta as lembranças de algum lugar preso em memórias.Gurgel de Oliveira
sábado, 18 de fevereiro de 2012
FETICHE

O ano é mil oitocentos e oitenta e a cidade é Veneza. O Pallazo Ducale, mais conhecido como Palácio do Doge, está decorado com veludo e frutas. Fitas de cores estão presas ao teto. A orquestra se prepara para os primeiros acordes. O erudito invade os salões e os convidados começam a chegar. Nas carruagens, homens e mulheres escondem alegrias e dores nas máscaras de tecidos finos. Em meio às colunas góticas que cercam o salão, dois olhares se cruzam. Suas identidades não são reveladas. Sentimentos e conquistas são misturados ao ponche e mãos acariciam o perfume das peles. A mulher corre pelos corredores. As janelas revelam gondoleiros e canais de águas e cheiros. A música esquenta o ambiente de tâmaras e orgias. Frascos com aromas asiáticos são abertos. Gotas de sândalo escorrem pelos seios da diva. As velas estão pela metade e são feitas de sebo caprino. Os olhares se desejam e ninguém sabe quem é o outro. A madrugada grita pelo dia. As gôndolas balançam e maestros dançam. Rendas e máscaras dormem e o baile se cansa. É hora de revelar os rostos. A diva, de olhos que lembram as amêndoas, corre pela praça São Marcos e não se mostra ao mundo. E a festa se desfaz na cidade agarrada ao passado.
Gurgel de Oliveira
Gurgel de Oliveira
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
"MEMÓRIAS DE ADRIANO" - (Para o amigo Adriano Padilha)
Já faz algumas décadas que o céu não é mais o mesmo aos olhos do menino que brincava com as nuvens. As noites na cidade grande nos impedem de olhar estrelas e o progresso que nos reveste apagou o lúdico e o que restou da poesia. Estive algumas vezes com o menino guardião das galáxias e das figuras de algodão que dançam sobre as nossas cabeças. A bordo de conversas sobre deuses e SEMIÓTICA, passamos algumas tardes construindo navios e outros meios de transporte que nos levassem à Idade Média e a outros tempos imemoriais...Só para não deixar que o anoitecer, de dentes afiados e retalhos de verdade, tirasse nossas fantasias onde os sábios, sarcófagos e Afrodite, nos faziam acreditar que o mundo não é apenas uma cama forrada com gelo e circundada por fantasmas e outras criaturas da escuridão. Numa tarde de verão, quando o sol anunciava a sua despedida por mais um dia de trabalho, fomos ao castelo onde vive a família do menino e uma caixinha de preciosidades. Comemos e conversamos muito. Observei a cidade do alto e me senti protegido dos estômagos indigestos que se escondem no aconchego das esquinas. Cheguei ao baile e já era noite. O navio era branco como o céu de outros verões. No rosto, uma máscara inspirada nos carnavais de Veneza. Nas mãos, três cristais encantados, antigos moradores da caixinha de preciosidades, só para não perder a poesia.
Gurgel de Oliveira
Gurgel de Oliveira
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
"Tempo de Baile" - Para Mourão Cavalcante
Gurgel de Oliveira
terça-feira, 7 de junho de 2011
A SENHORA DA MAGIA - DONA SINHÁ
DONA SINHÁ entende mundos e pessoas de formas diversas e esconde caminhos e encantos, por entre as linhas desenhadas nas palmas das mãos . Manipula energias só conhecidas pelos índios XAMÃS da América do Norte, para atrair espríritos que habitam dimensões não perceptíveis e só visualizadas por olhos treinados na tradição daqueles povos. Para DONA SINHÁ a intuição é uma arma com a qual podemos rabiscar e acariciar o destino, tornando o ninho da nossa alma menos vulnerável ao medo e aos ataques dos leopardos. DONA SINHÁ é feiticeira! Dedica a sua vida ao tempo real e às forças que dão cores aos sonhos das crianças cegas e estimuladas durante o sono pelos gatos de pelos claros que saltam dos travesseiros e evocam os gemidos, quase moribundos, que pingam sobre os dedos e dão forma ao semblante da morte. DONA SINHÁ faz brinquedos com a água...Molha as rugas do rosto com o choro das cachoeiras e borda os sonhos das matas com o azul quase celeste que dança no fundo do mar...
GURGEL DE OLIVEIRA
GURGEL DE OLIVEIRA
segunda-feira, 6 de junho de 2011
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