sábado, 18 de fevereiro de 2012

FETICHE


O ano é mil oitocentos e oitenta e a cidade é Veneza. O Pallazo Ducale, mais conhecido como Palácio do Doge, está decorado com veludo e frutas. Fitas de cores estão presas ao teto. A orquestra se prepara para os primeiros acordes. O erudito invade os salões e os convidados começam a chegar. Nas carruagens, homens e mulheres escondem alegrias e dores nas máscaras de tecidos finos. Em meio às colunas góticas que cercam o salão, dois olhares se cruzam. Suas identidades não são reveladas. Sentimentos e conquistas são misturados ao ponche e mãos acariciam o perfume das peles. A mulher corre pelos corredores. As janelas revelam gondoleiros e canais de águas e cheiros. A música esquenta o ambiente de tâmaras e orgias. Frascos com aromas asiáticos são abertos. Gotas de sândalo escorrem pelos seios da diva. As velas estão pela metade e são feitas de sebo caprino. Os olhares se desejam e ninguém sabe quem é o outro. A madrugada grita pelo dia. As gôndolas balançam e maestros dançam. Rendas e máscaras dormem e o baile se cansa. É hora de revelar os rostos. A diva, de olhos que lembram as amêndoas, corre pela praça São Marcos e não se mostra ao mundo. E a festa se desfaz na cidade agarrada ao passado.
Gurgel de Oliveira

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

"MEMÓRIAS DE ADRIANO" - (Para o amigo Adriano Padilha)

Já faz algumas décadas que o céu não é mais o mesmo aos olhos do menino que brincava com as nuvens. As noites na cidade grande nos impedem de olhar estrelas e o progresso que nos reveste apagou o lúdico e o que restou da poesia. Estive algumas vezes com o menino guardião das galáxias e das figuras de algodão que dançam sobre as nossas cabeças. A bordo de conversas sobre deuses e SEMIÓTICA, passamos algumas tardes construindo navios e outros meios de transporte que nos levassem à Idade Média e a outros tempos imemoriais...Só para não deixar que o anoitecer, de dentes afiados e retalhos de verdade, tirasse nossas fantasias onde os sábios, sarcófagos e Afrodite, nos faziam acreditar que o mundo não é apenas uma cama forrada com gelo e circundada por fantasmas e outras criaturas da escuridão. Numa tarde de verão, quando o sol anunciava a sua despedida por mais um dia de trabalho, fomos ao castelo onde vive a família do menino e uma caixinha de preciosidades. Comemos e conversamos muito. Observei a cidade do alto e me senti protegido dos estômagos indigestos que se escondem no aconchego das esquinas. Cheguei ao baile e já era noite. O navio era branco como o céu de outros verões. No rosto, uma máscara inspirada nos carnavais de Veneza. Nas mãos, três cristais encantados, antigos moradores da caixinha de preciosidades, só para não perder a poesia.
Gurgel de Oliveira

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

"Tempo de Baile" - Para Mourão Cavalcante

Um beijo de princesa está colado ao teto de madeira da nossa casa. Poemas de escritores não conhecidos se desprendem do pijama e enchem os vasos noturnos de angústia e tardes não dormidas. O refluxo rasga o estômago da criança morta e a sala principal anuncia velórios só para matar o tempo. O nome do livro é Tempo de Baile! O escritor retira frases de cidades frias e recria assassinatos nos sítios históricos que descansam no mapa. Para qual dos lados teremos que olhar agora? Existem sepulturas estampadas nos doces de sofrimento de Cora Coralina e as pontes de Goiás não protegem mais os rios. Somos os donos dos nossos fantasmas que só adormecem depois da meia noite, quando o Sol se esconde embaixo do travesseiro com medo dos ataques da Lua. É tempo de bailar o tempo e esconder as máscaras nos rostos que não dizem verdades. Existe mesmo a verdade ou tudo não passa de um sonho embriagado pela saliva da dança? Em qual dos bailes perdemos o jeito de dançar e lamber feridas abertas? Perguntemos ao escritor... Foi ele o criador da festa.
Gurgel de Oliveira

terça-feira, 7 de junho de 2011

A SENHORA DA MAGIA - DONA SINHÁ

DONA SINHÁ entende mundos e pessoas de formas diversas e esconde caminhos e encantos, por entre as linhas desenhadas nas palmas das mãos . Manipula energias só conhecidas pelos índios XAMÃS da América do Norte, para atrair espríritos que habitam dimensões não perceptíveis e só visualizadas por olhos treinados na tradição daqueles povos. Para DONA SINHÁ a intuição é uma arma com a qual podemos rabiscar e acariciar o destino, tornando o ninho da nossa alma menos vulnerável ao medo e aos ataques dos leopardos. DONA SINHÁ é feiticeira! Dedica a sua vida ao tempo real e às forças que dão cores aos sonhos das crianças cegas e estimuladas durante o sono pelos gatos de pelos claros que saltam dos travesseiros e evocam os gemidos, quase moribundos, que pingam sobre os dedos e dão forma ao semblante da morte. DONA SINHÁ faz brinquedos com a água...Molha as rugas do rosto com o choro das cachoeiras e borda os sonhos das matas com o azul quase celeste que dança no fundo do mar...

GURGEL DE OLIVEIRA

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Manoel de Azevedo Silva e Outros Encantos Possíveis



A vida nos reserva surpresas todos os dias. Nossas crenças são testadas e renovadas a cada suspiro da luz que ilumina as tardes de Outono , embaladas pela brisa e sopros de magia, como se os nossos olhos fossem acariciados por mãos divinas e preparados para um novo amanhã. Não conheci o SENHOR NENÉU, que dizia ter viajado à lua com os astronautas a bordo de um grande foguete e que o Sol era frio como blocos de gelo perdidos na imensidão do espaço. Caçador e apaixonado por aventuras de tirar o fôlego, SEU NENÉU descia o RIO PARAGUAÇU e explorava florestas em busca de onças, jacarés e aves de um exotismo tão peculiar que enchia de cores o imaginário de crianças, adultos e velhos amantes das fantasias só possíveis às pessoas que têm jardins e ternura no coração. SEU NENÉU tinha um mundo próprio , onde o Sol era inverno e a Lua um universo alcançável. Numa noite de verão, em Cruz das Almas, reencontrou Lampião, o temido cangaceiro que desafiou o fogo e fez história no SERTÃO, numa época em que um bom facão ditava as regras e calava bocas e corpos em desencanto. Hoje os dias e as noites brilham diferente. Seu NENÉU partiu para mundos distantes e já faz bastante tempo que não manda notícias. Será que está na TERRA DO NUNCA enfrentando piratas e gigantes do mar? Isso eu não sei! Mas de uma coisa eu tenho certeza: o velhinho encantado está num lugar onde os desejos e os sonhos duram para sempre e as onças, jacarés e outras caças têm o cheiro das rosas brancas e o sabor da verdadeira saudade.
Gurgel de Oliveira

sexta-feira, 25 de março de 2011

LEMBRANÇAS PARA SIMONE WEIL



O ano é mil novecentos e trinta. A China tem fome e os mandarins clamam por justiça em praças e templos tocados pelos deuses. Simone Weil corre e atormenta os corredores da Sorbone a procura da amiga, a outra Simone que, dia após dia, luta para descobrir um sentido para a vida dos homens. As noites são de chuva e as ruas são enfeitadas por pessoas com roupas sem cores, dor e ressentimentos. As causas humanitárias estampam jornais e as paredes das esquinas acolhem os protestos e o inconformismo dos estômagos quase sempre vazios. Simone Weil submete o corpo à extremas privações. A outra Simone escreve sem parar e mata a fome com brioches e poemas importados de Dublin. Artistas e prostitutas trocam afagos e marroquinos servem de molde para as intenções nem sempre reveladas dos artistas que buscam brilho e notoriedade. O tempo passa e chegam as noites de calor e bebidas de origens não conhecidas. É verão no Velho Mundo e os líderes não se entendem. As farras nos cabarés se intensificam e a arte toma rumos nunca vistos. Simone Weil grita pelas ruas inglesas e marca o corpo com sangue e trapos retirados da pele dos anjos. A outra Simone escreve sem parar e entorpece a alma, para que os sentidos do olhar não adormeçam diante do caos.
Gurgel de Oliveira