terça-feira, 14 de dezembro de 2010

TREBLINKA



Treblinka não cabe na poesia. A máquina da morte causa calafrios e medo aos que chegam nos trens abarrotados de gente e sentimentos infantis esmagados pela dor que causa cansaço e falta de ar. O cheiro nos vagões é de peles queimadas e corpos sem banhos cobertos com mantas que não prometem conforto. A paisagem é branca e não se adapta ao carinho e ao choro presos nas fotografias escondidas em sacos de papel . O senhor Ami chegou a Varsóvia em 1943. Era outono e o céu não prometia dias melhores nem lírios d'Água. As folhas cobriam o chão da Polônia com um amarelo que também não cabe na poesia. Pessoas viram números em Treblinka e as roupas listradas trabalham duro para manter o medo em segredo. O senhor Ami chega ao CAMPO DA MORTE em setembro de 1943. Valas e carne queimada fazem parte dos dias que não acabam nunca. Funcionários alemães e ucranianos caminham de um lado para o outro e tentam manter a ordem. A SOLUÇÃO FINAL foi posta em prática de forma impiedosa, com máscaras e gás. O senhor Ami olha os corpos e lembra da família esquecida em algum beco de Berlim. A noite acorda e mostra a cara aos que insistem em dormir . O pavor se renova a cada instante. O senhor Ami não respira mais e cinzas são misturadas à areia.
Gurgel de Oliveira

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

LOUISE LABÉ

Em "Debate da Loucura e do Amor", a autora explora a sensualidade, o direito ao sexo livre e à liberdade de pensar, através de metáforas e sutilezas que nos remetem a um mundo de encantos e coisas não reais. Louise, a cordoeira que devorava homens através de sonetos, depravação e máscaras, incomodou e acirrou discussões entre uma classe social que preservava o conservadorismo e promovia festas com muito cristal, fermentados e anéis de procedência cobiçada - em solo francês libertado da escuridão que iluminou a Idade Média. Seus escritos exalam orgias, desejos não realizados, inveja e traições acobertadas por cortinas de veludo e destilados de efeitos alucinógenos. Louise falava e escrevia em latim e italiano , estudou música e esgrima, um esporte praticado exclusivamente por homens - pelo menos no século dezesseis. A nova Safo, como também era chamada pelos amigos que produziam literatura, lutou por educação e pelo direito de uma mulher escolher o parceiro com o qual pretendia dividir o corpo e a cama. Pessoas como Louise, que não temem comportamentos e mentalidades rudimentares, quando morrem, ou vão para o céu ou para uma colônia onde vivem os espíritos que tentaram mudar o mundo e experimentar novos sabores.
Gurgel de Oliveira

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

DEVANEIOS - Elias Santos

DEVANEIOS - Ramiro Bernabó

Dona Joana

Dona Joana das Ervas é muito conhecida no povoado como a velhinha rezadeira. Cura espinhela caída, tosse seca e outras enfermidades que atacam as crianças e também os adultos que moram próximos e nos vilarejos distantes. As estradas são de terra batida e a vegetação é rasteira, com muitos espinhos e muitas estórias contadas e cantadas nas rodas de viola organizadas pelos moradores e os repentistas do local. O olhar de dona Joana parece água do mar. Suas retinas escondem as verdades que não podem ser pronunciadas e serão guardadas para sempre como segredos dissecados e empalhados para que não percam as suas formas. As mãos de dona Joana têm rugas, manchas e o cheiro dos corpos com os quais já caminhou pelos mundos dos mistérios que só ela conhece. Na sala da casa onde ela mora tem um altar forrado com papel e docinhos de frutas que enfeitam as imagens e revestem de alegria a auréola do anjinho de gesso. Ao lado, na parede próxima do quarto, um retrato com moldura oval vigia os corredores e a porta da rua. É a foto de dona Joana rezada pelos espíritos e abençoada pelos mensageiros do sono. Parece guardar o povoado na estampa do vestido que foi comprado na feira de todos os sábados pelo filho que sumiu quando buscava ervas na mata próxima do rio. Dizem que foi levado pela Mãe d'àgua e hoje mora numa pedra junto da cachoeira.
Gurgel de Oliveira

terça-feira, 19 de outubro de 2010

INANNA, O ORÁCULO DO CRESCENTE FÉRTIL



Entre os rios Tigre e Eufrates,  área integrante do Crescente Fértil,  os sumérios construíram barragens, canais de irrigação e diques que concentravam uma grande quantidade de argila, matéria-prima usada na fabricação de utilitários, artesanato e placas onde estão impressas ideias e significados do pensamento daquele povo, através da escrita cuneiforme. Politeísta, a sociedade suméria acreditava em várias divindades ligadas aos fenômenos da natureza e aos sentimentos humanos como o amor, o ódio e a vaidade. Inanna, a deusa mais popular da época, luz da Mesopotâmia, era sinônimo de austeridade, sensualidade e magnetismo que evocava e seduzia o mais descrente dos mortais. Construtores e arquitetos de muito talento, os sumérios projetaram e edificaram Cidades-Estado como Eridu, Uruk, Kisch Nipur e Ur, templos artísticos e funcionais que impressionaram a antiguidade entre os anos quatro mil e mil novecentos e cinquenta,  antes de Cristo. Os Zigurates, enormes construções de formatos piramidais, serviam para guardar grãos e, hoje, o que sobrou impressiona turistas curiosos e estudiosos de civilizações que não desvendaram os seus segredos ao mundo contemporâneo.Os sumérios e o seu território foram surpreendidos pelos Amoritas e Elamitas, invasores de orígem persa. Nem a deusa Inanna, com toda a sua força e fúria de mulher e oráculo conseguiu impedir o massacre. Está tudo registrado nas placas de argila espalhadas pelos museus do mundo. O barro é como o olhar de Inana...Simples e revelador.
Gurgel de Oliveira

Foto: pormenor de painel em argila que retrata o cotidiano dos sumérios. Museu do Iraque.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Sobre o Mito de Sísifo e Amendoeiras...


Um homem busca unidade e sentido no amanhã que nos empurra para a morte. A pedra é carregada nos ombros e acomodada no topo da montanha para depois ser arremessada e transportada novamente. Sísifo não cansa e os seus braços e pernas movem máquinas e rostos desprovidos de pele, dentes e lábios. Realizar o absurdo é espantar o desejo suicida do estudante ausente que deixa a sala de aula para viver o vazio ao pé da amendoeira. Dias cheios, tardes com neblina e noites insones. É assim o universo desinteressante que brota das páginas de jornais e capas de revistas. O mundo em desequilíbrio que estimula o nascimento das árvores e seduz jovens ávidos por folhas e coisa nenhuma. Retrato de um sentimento que faz doer na alma a canção primaveril que não foi cantada. Sísifo carrega a pedra e maltrata o corpo e os músculos com movimentos repetidos e golpes. O aluno adormece nos lençóis de amêndoas e sua mochila é azul e presente na aula sobre homem e comunicação. A noite se cansa e chora pedindo aos deuses que amanheça novamente. Sísifo carrega pedras e pensa em construir futuros. O estudante suspira e escreve frases suspeitas no chão de folhas secas. É assim a vida... absolutamente sem sentido e morna.
Gurgel de Oliveira

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

YUKIO MISHIMA

A ideia abstrata da beleza perfeita incomoda o escritor. O barulho dos aviões de guerra deslizam pela caneta e mancha o texto tantas vezes escrito. A ausência perturba e resgata momentos absolutos de tristeza e solidão. E o brilho do Pavilhão Dourado reflete a infância de perversidade e tirania, numa aldeia de casinhas brancas e simplicidade perto de Tokio. A espada do Samurai mira o aparelho digestivo e retalha a carne com músculos e sangue. E o ideal de beleza inunda tapetes e travesseiros que exalam sakê e sushi. Para sempre seremos animais com fome e dores vertebrais; observadores do lixo que brota dos seres humanos e dos contos de Mishima. Para sempre tentaremos matar a fome do outro que está preso ao espelho. Até que o tempo nos traga a areia do deserto que esconde as almas das crianças que morreram abraçadas ao silêncio.
Gurgel de Oliveira

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Valéria Messalina e Patrícia Galvão: sexo e ideologia

Valéria está presa ao sarcófago por ordem do IMPERADOR. O homem nu segura um caduceu e conduz o cachorro de pelos brancos ao leito do rio. O SENADO discute o destino de ROMA e os caminhos pelos quais desfilam  REIS e escravas da Núbia . Patrícia Galvão levanta bandeiras e grita o feminismo na cidade de São Paulo. Valéria é amordaçada e espancada no castelo da devassidão e luxúria, e os seus peitos são servidos em bandejas forradas com sangue e restos de festa. Pagu escreve resenhas e defende o uso, o desuso e os abusos dos batons de cores vermelhas. Modernos e simpatizantes elegem o cubismo e Pablo Picasso como mais uma arma de guerra. Valéria é banhada com o leite das cabras, o esperma dos etíopes e é levada em liteiras para mais uma sessão de sexo e vinho. Patrícia Galvão é presa e torturada, acusada de práticas comunistas e traição ao ESTADO NOVO. Valéria é jogada aos leões nas arenas estimuladas por pão, circo, alabastro e poder. Patrícia é detida mais uma vez e pensa, seriamente, em fazer teatro e escrever jornais. Valéria Messalina pratica prazeres carnais e diz não estar satisfeita. Mulheres valentes em diferentes épocas e contextos. Quedas de IMPÉRIOS, mortes e ideologias massacradas pelos VARGAS. Desistir,  jamais! Era o lema. Valéria, segunda esposa de CLÁUDIO, foi comida por todo um IMPÉRIO e assassinada no auge do gozo. Patrícia, a nossa Pagu, partiu cancerosa nos braços de HERMES, o anjo mitológico das almas, levando no rosto batons, leitos de rios, cachorros e homens nus.
Gurgel de Oliveira

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Serial Killer

Um véu de neblina encobre as árvores do parque florestal. Stefhany receia ser a próxima vítima e busca refúgio nos lençóis que cheiram a gripe e fome. Retalhos de lembranças deslizam  pelas venezianas e adornam a lareira com pêssegos, tâmaras e poesia. E a sonolência da rua ecoa na fisionomia do busto assentado na praça. Mais crianças mortas amanhecem no parque...sem cabeças, braços e vísceras. Insetos lacrimejam e as folhas de tons amarelos rastejam no chão e colorem  o outono. O vestido de Stefhany é encontrado em vasos repletos de lírios d'água e recortes de fotografias. Existe uma mala com ossos colada  nas pálpebras do anjo ausente. E um grito de dor vasculha as estradas e fronteiras do além. Pedaços de gelo encobrem  o rosto da criança morta. E o parque florestal desaparece por entre nuvens e revoltas impunes.
Gurgel de Oliveira

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O olho, a alma, a pena e a palavra de Gurgel de Oliveira: escrita na telha de vidro

O que falta, hoje, nas experiências de escrita independente, sobra na prática de Gurgel de Oliveira: justeza entre crítica e poesia; subjetividades e lucidez, conhecimento e fantasia, olhar para fora e, inversamente, "de dentro ao mundo" - considerando a virtualidade do espaço e da ferramenta escolhida -, equilíbrio de informação e abalos ao que se verifica nas pontes bem fincadas do cotidiano. Dessa forma, os temas de seu blog (Arte, Histórias e Canções para Virgínia Wolf) vão encontrar os que acolhem a literatura, os da sala de cinema e os que desfilam na Bahia das centenárias putas; os que lêem notícias do mundo, os que digerem tudo e os que nada vêem em sua obliquidade de olhar. Gurgel é quase um nosso cronista - resguardando-se todos os aspectos da palavra e do gênero - que experimenta de forma livre a crônica, podendo-se ver ali ecos de Gregório de Mattos e de outros tão nossos vizinhos - como João Ubaldo - até o cronista de jornal, atento ao movimento do tempo e do espaço no qual se insere, vendo como notícia o mundo que corre veloz para além da tela. Há, junto ao cronista, um poeta, um ficcionista. Possuidor de agudeza no olhar e delicadeza da palavra, ou de ferina palavra e olhar delicado. É um blog vivo e vasto, com cuidados literários, rastros de boas referências, e liberdade fora dos moldes canônicos; alí, o exercício da palavra parece ser também da paixão. E isso faz, certamente, a experiência dessa escrita algo particular. Da palavra à imagem, das letras ao cinema, da vida à notícia...Não é um entre milhares de blogs. É o Blog de Gurgel. Assim de simples: blog com assinatura. E estilo.
Milena Britto - Professora do Instituto de Letras da Ufba.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O OLHAR DO OUTRO E O LODO DA CAVERNA

O olhar do outro nos desconcerta. Despe os nossos espíritos e corta a liberdade das almas que nos acolhem. Portas e janelas se abrem ao desconhecido e nos convidam para um passeio. O olhar do outro nos acompanha e confunde prezeres e desejos. Somos escravos dos nossos corpos? Fabricamos escorderijos para guardar os nossos medos? O olhar do outro tem um jeito perverso para o confronto. Somos castigados, amordaçados e acomodados na escuridão da caverna. As sombras das pessoas que fazem o mundo são refletidas nas paredes de pedra. A caverna é um mergulho na cegueira do inconsciente que nos protege do racional. Não somos sujeitos da razão! Fantasia é um consolo que buscamos para que possamos aguentar o corpo físico e vidas sem sentido. Desejamos mergulhos não tão profundos nos olhares dos outros. A calma dos museus e a ansiedade que imobiliza os seus acervos não nos incomodam. O olhar do outro fere a retina dos olhos do vento e canta baixinho para os filhos do tempo. Vamos tatuar um outro olhar sobre a pele que nos protege? Queremos escalar as cavernas quase sempre prisionais com água, lodo e estrume fossilizados. As várias faces da vida e da razão estão presas a passados e grutas. O olhar do outro é o nosso olhar refletido nos espelhos e na ignorância que embala o sono do mundo.
Gurgel de Oliveira

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

DINER'S

video

Realizamos este trabalho aqui em Salvador com o premiado diretor argentino Carlos Sorin. Fiz a Produção de Arte e tive a oportunidade de trabalhar com o João Roní, grande produtor e realizador. Depois fizemos outros trabalhos juntos. O contato do João é oceanfilms@oceanfilms.com.br

Gurgel de Oliveira

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

SOBRE PUTAS E ESTÔMAGOS

Na hora sagrada do PADÊ, os atabaques intimidam a embriaguez do sol e saúdam a chegada e a imponência de EXÚ. Na BAHIA erotizada pelos aromas e sabores cítricos, o sexo das putas inundam os paladares nem sempre exigentes de indigentes e estudantes de outras AMÉRICAS. Saveiros e negras que cheiram a barro e lama cruzam os rios com a elegância dos náufragos que habitam ilhas e montanhas submersas pelas cachoeiras onde dormem sereias e ondinas. E os bares gritam os nomes das vagabundas que emprestam as suas peles e coxas para os estrangeiros com ressaca e nojo das roupas que viraram bandeiras e máscaras sem acabamento e estilo. Que tal passearmos pela noite e desvendar os nossos segredos inspirados nos segredos alheios? Vamos tomar um ônibus e pedir ao motorista que nos conduza ao prostíbulo mais próximo? A madrugada é curta e precisamos curtir um CURTA. Quem sabe o cinema nos ofereça respostas para as indagações que rondam os nossos estômagos e matam os nossos desejos de febre e inanição!
GURGEL DE OLIVEIRA

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Os Vasos de Terracota que Guardavam os Mortos

A antiga civilização da Etrúria, localizada na Itália Central, teve a sua mais importante e expressiva produção artística entre os séculos oito e dois antes de Cristo. Artesãos de extrema habilidade e inspirados pela arte grega, fenícia, egípcia, assíria, e oriental, os etruscos influenciaram profundamente a arte romana do primeiro século antes da era cristã. A estatuária e os vasos funerários confeccionados em terracota, barro e bronze e a joalheria em ouro, prata e marfim são o testemunho da habilidade e talento do povo Etrusco para a construção e lapidação de uma estética que marcou época e encantou deuses, raínhas e guerreiros tocados pela vaidade. O costume de guardar as cinzas dos entes queridos em vasos funerários, ricamente decorados com esculturas que reproduziam traços da fisionomia do morto impressionam o menino Mateo, que ouve com atenção as estórias contadas pela sua avó materna, dona Francesca, professora de Educação Artística e investigadora das ruínas de Arezzo, cidade-estado da Etrúria, que sobreviveram e são testemunhas de um tempo que não retorna. Os dois caminham e rompem o silêncio vespertino com perguntas que possivelmente ainda estão com as suas respostas embaixo dos sítios arqueológicos. Dona Francesca , na tentativa de satisfazer a curiosidade do menino, diz que o esforço dos estudiosos para juntar fragmentos que façam algum sentido é muito grande. Pesquisadores e cientistas da arte e civilizações antigas investigam diariamente tentando preencher lacunas de incertezas a respeito dos hábitos e cotidiano de um povo que guardava em vasos o poder da ancestralidade.
Gurgel de Oliveira


segunda-feira, 9 de agosto de 2010

UM DIA PELO MUNDO

Um homem declama  poemas de Artur Rimbaud no Passeio Público da Cidade Mãe. Simultaneamente, grupos ligados ao narcotráfico agem com grande desenvoltura nas principais cidades do país. A Colômbia oferece lições de urbanismo e segurança à autoridades e governantes brasileiros. As torres de espelho de Kuala Lampur, no sudeste asiático, tentam tocar o céu e sentir o cheiro das nuvens. Mulheres rasgam burkas e o hijab no Afeganistão e sete crianças paquistanesas morrem incineradas no norte da Índia. É a vida mexendo as mãos e expulsando os traumas que causam náuseas ao amanhecer. Estudantes carregam Bombas nas mãos em algum lugar de Belfast . Obras de Pablo Picassso são roubadas de um museu em Nova Yorque. É o mundo mostrando ao tempo que as mazelas existem e têm olhos que vigiam animais e caçadores nas savanas africanas. No muro das lamentações, próximo dos martírios da Via Dolorosa, judeus ressecam suas dores e deixam recados escritos nas fronteiras do sagrado. É o tempo mostrando ao homem que o passado está presente e pode voltar num piscar de olhos. Aqui, onde estamos agora,  acordando para mais um dia de trabalho e surpresas, pessoas passam em ônibus e carros pelas avenidas,  carregando nos braços embrulhos e crianças desencantadas com a palidez dos brinquedos e o cinismo dos sonhos enclausurados.
Gurgel de Oliveira

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

OS SUPORTES DE FRIDA


 A jovem Magdalena Carmen teve o ventre dilacerado pelos ferros do bonde e foi condenada ao sofrimento. Em terras maias e astecas , onde os sacrifícios rotineiros incluíam curativos e medicamentos para suportar o dia, o corpo da pintora era sufocado pelos suportes de madeira e gesso e sua alma acalmada por unguentos e carícias de anjos ainda não pintados. Os anos passsaram e as dores não. As roupas com cores e adereços ajudavam a fabricar sorrisos no rosto atropelado pelo desejo de calma e calmantes. As telas foram pintadas e presas nos quadrados de madeira e verniz. A cama, fabricada no final do século dezenove, foi adornada com fotos de amigos e urina das madrugadas urgentes. O descontrole do corpo controlava mãos e pulsos e ajudava o cérebro a desenhar realidades perfuradas com parafusos e alfinetes. O México fervia. Intrigas políticas faziam pulsar os dias de sol, comidas e condimentos .Magdalena sentia dores e pintava com a cartela de cores que habita a nossa alma. Os esboços  da agonia ganharam o mundo. André Breton os qualificava como surrealistas e Frida dizia que não pintava sonhos, pintava a dor física que machucava o espírito e tornava a vida uma cama fria. O mundo pulsava. Paris era pertinho e Nova Yorque também. Diego a amou profundamente. Aos quarenta e sete anos a pintora partiu levando pincéis e coletes. Sem dores, ela nos acena, nos atira um beijo carmim e diz que a vida é o seu autorretrato.


Gurgel de Oliveira

 Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderon, mais conhecida como Frida Kah. Foto Museu de Coyoacá - México.
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quinta-feira, 22 de julho de 2010

O QUARTO DA SALA




Na Bahia dos anos trinta e quarenta do século vinte, a maioria dos casarões do Centro Histórico de Salvador tinha um quarto reservado para conversas íntimas, segredos e troca de carícias entre os visitantes mais afoitos. O QUARTO DA SALA, como era chamado, tinha uma decoração simples, geralmente com tecidos claros, mesinhas de jacarandá e janelas quase sempre serradas, cobertas com cortinas de veludo vinho, o que tornava o lugar mais quente e acolhedor. Numa manhã de domingo, enquanto dona Letícia preparava uns bolinhos para servir aos convidados que chegariam por volta do meio dia, Francisca e Verinha entraram no quarto com suas bonecas vestidas de seda, trancaram a porta e brincaram em silêncio por alguns minutos. As duas meninas nunca mais foram encontradas. Dona Letícia convive com a dor diária da ausência e falta de respostas.O quarto permanece trancado. A mobília foi coberta com lençóis brancos e lágrimas. Seu Leôncio, esposo de dona Letícia e pai das crianças sumidas, vaga pelos corredores com olhos de angústia e espera. As bonecas, antes vestidas de seda e bem cuidadas, observam todo o movimento como se guardassem a verdade no vidro brilhante dos olhos.
Gurgel de Oliveira

quarta-feira, 23 de junho de 2010

GERTRUDE STEIN E ALICE B. TOKLAS

No olhar de Gertrude a bahia refletida e o movimento dos barcos. Preso ao espelho, o rosto de Alice acena para as gaivotas com peles, lágrimas e olhos de saudade. A bahia e o espelho são silenciados. Os barcos balançam e atiçam as velas tatuadas pelas mãos dos senhores que abraçam o mar. Poemas são atirados na água. Sentimentos são afogados nas agonias intermináveis que brotam da cara da morte. Gertrude e Alice já não se encontram mais. Cartas são aprisionadas para sempre nas malas de couro que dormem nos porões. A cidade é mergulhada num sono que inquieta e perturba os moradores e os seus altares de madeira e papel. O rosto de Alice escorre pelo espelho e tenta alcançar os objetos que estão na penteadeira. O quarto passeia pelo tempo e seduz o vento. Portas e janelas relembram conversas e reuniões de amigos. As bebedeiras de domingo se desprendem das paredes e correm pelas camas e fronhas forradas com arminho.O rio que corta a cidade amanhece e desmascara o dia. Gertrude e Alice passeiam pelo album de fotos e saúdam os amigos mortos. Crianças francesas adormecem Paris e acordam homenagens em Pittsburgh. Vale tudo quando se ama os sonhos.
Gurgel de Oliveira







quarta-feira, 28 de abril de 2010

THE LOVELY BONES - UM OLHAR DO PARAÍSO

O corpo esquartejado de Susie Salmon está preso num cofre em algum lugar da Pensilvânia. Os olhos azuis do assasino passeiam pelo bairro em busca da próxima vítima. A realidade é laranja e o forro das paredes também. Suzie redescobre o paraíso. O azul e amarelo contrastam com as cores dos campos, do mar, da areia e do céu. O assassino observa a casa de brinquedo e o cofre. A sensação é de desconforto e ansiedade. O pai de Susie quebra as miniaturas de navios que estavam presas em garrafas. A mãe se desespera e parte para a linha do esquecimento. Susie acompanha o desenrolar de acontecimentos ao lado da amiga nipônica, vítima do mesmo assassino. A fotografia me causa estranhamento e uma sensação de loucura setentista. O paraíso se descortina. A copa da árvore é feita de pássaros. A realidade pós-morte é de uma beleza assustadora. As cenas retrô nos remetem ao tricô e calças bordadas com pedaços de espelho. O assassino deseja a irmã de Susie. O corpo apodrece no cofre e exala perfume nas fronteiras do além. A dualidade do roteiro se perde nas paisagens bucólicas que navegam entre realidade ficcional e visão distorcida do real. O tempo do filme é de beleza, lágrimas e espera. O cofre é a chave de tudo. Cenas submersas desvendam o passado de olhos azuis e mais meninas mortas. O pai observa fotos. A Direção de arte é cardecista e competente. O final se aproxima. A avó de Susie é o espelho do patético e convence. O cofre vai para o fundo da terra. Susie é libertada do próprio corpo para viver uma nova vida ao lado das meninas mortas. O assassino é assassinado como um castigo do divino. A vingança do sagrado bordada em clichês e lascas de gelo. A vida vai seguindo o seu destino. O paraíso existe e o gazebo é kitsch. Peter Jackson ajustou a narrativa ao exagero estético do que pode ser a vida após a vida. O resultado é belo como um cofre aprisionado na mente de um psicopata.
GURGEL DE OLIVEIRA

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O MUNDO DE VIRGÍNIA


O rosto refletido na poeira que escalda as dunas e redescobre manuscritos assusta pela forma como nos percebe. Agasalhada, dona Virgínia parece carregar o mundo nos ombros cobertos de fadiga e feridas de melancolia e desânimo. O clima no deserto resseca a pele que recobre a retina e faz crescerem espinhos no olhar. Dona Virgínia escreve ao tempo a sua desilusão. A falta de sono arranha o segredo da noite e massacra o encanto que torna o sonho um presente inesquecível. Pássaros e porcos mastigam relógios urgentes, cavalos e meretrizes. Dona Vírgínia não dorme. A Inglaterra chora e desvenda segredos à beira do lago. Dona Virgínia desfia manuscritos e surpreende a morte.
Gurgel de Oliveira

segunda-feira, 29 de março de 2010

ALICE MARIA, SOMBRAS E ESQUECIMENTOS

As cavernas que cercam os olhos de Alice guardam recordações e lençóis recortados pelo vento. As lágrimas moldaram cicatrizes e aprofundaram desejos guardados, retalhos de afeto e caixinhas repletas de cartas não escritas que insistem em desbotar. Os olhos de Alice enfeitam o seu rosto e tentam enchergar o mundo por uma janela de pedra esculpida por homens quase sempre dispostos a traçar destinos, nas pálpebras que não dormem e nem os deixam descansar .O suor escorre pelas frestas de pele e escamas aquecendo o choro de todos os dias e molhando de vergonha os lábios pintados de vertigem e arrependimento que escondem dentes , linguas e restos de comida com cheiro e gosto de aves silvestres. Alice não mora mais nos seus olhos. As cavernas escurecem diariamente e as rugas permanecem alí, imóveis, vigiando as cicatrizes escritas com sangue e ódio. Seu rosto, visto de longe, parece uma foto em decomposição esperando a hora certa para engolir a terra. Alice Maria, que no século dezenove encantou homens e servos, hoje não passa de uma lembrança perdida no esquecimento.
Gurgel de Oliveira

segunda-feira, 22 de março de 2010

PONTO DE VISTA

Gurgel de oliveira em seu blog Arte, História e Cinema orquestra a Contemporaneidade à luz do milagre da criação artística mediante a apreensão de aspectos culturais vazados em meio a alquimia da nova ordem estabelecida pela dimensão da imagem, do "Virtual", na busca do sagrado, do Eterno que ronda a condição humana. Numa perspectiva ousada, este blog veleja pela polissemia da imagem vestida pelo verbal num arrastar da sua cadeia de significantes, na qual cabe a quem ler, escolher entre um ou outro significado. Neste aspecto, a imagem trabalhada pela arte, assume o papel de meio de registro e representação de diversas realidades passíveis de múltiplas leituras em variados níveis. Como diria Clifford Geerts, a cultura, enquanto sistema de significados socialmente estabelecidos, torna possível que as Artes reconstituam o contexto de vida das pessoas com suas respectivas representações sociais.
Assim, Gurgel de Oliveira movido pelo seu olhar poético, convida o leitor a navegar pelo universo das subjetividades das obras artísticas em suas diferentes esferas numa construção que transforma a realidade, a apartir da articução entre a palavra, a imagem, o som e o movimento. Configura-se assim - neste blog - a busca da linguagem artística pela captura e transformação da realidade em suas multiplicidades, através de narrativas do viver e do sonhar.

Diogo Fontenelle
Poeta e Doutorando em Sociologia U.F.C

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O ROSTO DO TEMPO

Dores que habitam corpos nascidos de ventres quase sempre ocupados. Crianças que atiram dentes nos rios que cortam os vales colombianos e refrescam vidas que brotam das serras andinas. Lendas que ilustram livros e lições estudantis, quando as tardes esfriam e tingem de branco o terreiro das casas aquecidas por fogueiras e chamas que rodopiam. Os sonhos que alimentam as nossas noites nos deixam confusos. Acordamos com sensações estranhas nos olhos e a pele do rosto mais velha, sem elasticidade. Quanta confusão! O dia que começa nos arrasta cheios de esperança e vontade de encontrar o nosso lugar no mundo. Mundo estranho! Orelhas são encontradas em terrenos baldios observadas e degustadas pelos ratos que os homens criaram e alimentaram com restos de salada e salmão. É hora de correr. Rasgar o figurino circense e virar marabalista nas passarelas que ligam lojas de coveniências às estações de transbordo que transbordam a cada enchente, cheias de gente e de pentes. Cabelos são cortados e atirados aos rios mortos que insistem em cortar cidades e vielas. E o dia vai desfiando dores. As dores roubam suspiros e mais crianças atiram dentes nas serras andinas. É o começo do frio que engole o rio e fura os olhos do vento. É o grito do tempo!
Gurgel de Oliveira

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

A FORASTEIRA

Na sua penúltima viagem, a forasteira desembarcou na cidade do CAIRO a bordo de mochilas surradas, guias de viagens e muita ânsia de desbravar o solo desconhecido do VALE DO NILO. Percorreu os mercados da cidade onde os dialetos desafiam o tempo e constroem o cotidiano impregnado de estórias não reveladas e túmulos não tocados, que ainda escondem segredos circundados por jade e calcário. Como passageira do navio que desce o rio que banhou escravos, escribas e negras importadas da Núbia, a forasteira fotografou templos, bebeu coca-cola e trocou informações com turistas dos quatro continentes, queimados pelo sol que tinge de dourado as pirâmides e mastabas da NECRÓPOLE DE MÊNFIS. E continua a aventura! A lua atira a sua luminosidade sobre DEIR-EL-BAHARI, onde talhado na montanha descansa o templo funerário da rainha RATCHEPSOUT, a mulher de gestos e mãos elegantes que marcaram a décima oitava dinastia. E por falar em rainha, a forasteira pergunta a um arqueólogo sobre NEFERTITI, a jovem que foi confundida com uma princesa do império MITANNI, mulher de rara beleza e esposa de AKHENATON. As respostas encantam e sugerem novas perguntas. Amanhece no NILO. A forasteira sente saudades da filha que deixou no seu pais natal. Lembranças da infância enfeitam o café da manhã servido ao ar livre. Pessoas conversam e atiram olhares . Águas calmas e clima de nostalgia bordam as horas que rodopiam e resgatam o calor da tarde. É o tempo apressando o fim. A forasteira sente dores. É hora de voltar! Voltar correndo e abraçar o último sopro de vida. Beijar as faces da família. Dar adeus ao próprio corpo. Se despedir do sorriso alheio e arrumar a bagagem para a última viagem. Anúbis, o deus da morte, abraça a jovem senhora com encanto e confiança. Atravessam as nuvens que separam os mundos e partem apressados , carregando nas mochilas o enígma da esfinge.
Gurgel de Oliveira

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Sobre Generosidade e Corpos Congelados

Da cadeira estrategicamente colocada no centro da sala, Maria Clara observa os móveis, objetos e papéis que estão dispostos em volta dos seus olhos. Sabe exatamente a data da chegada de cada quadro exposto nas paredes, e de quem ganhou as gravuras que enfeitam as colunas do corredor que serviu tantas vezes de pista de corrida, quando ela ainda brincava de ser criança. Maria Clara escreve cartas para os amigos pelas mãos de dona Guilhermina, uma vizinha de pele clara e feições absolutamente entristecidas, decorrência do choque que sofreu ao saber detalhes sobre o acidente do qual Maria Clara foi a única sobrevivente. Os donos da casa, pais da menina, não tiveram a mesma sorte e hoje passeiam sem rumo, do outro lado da vida, tentando observar e entender o que aconteceu. Dona Guilhermina conta estórias de esperança e superação à jovem enferma, diz que a vida é feita de surpresas e que nada é impossível. Maria Clara ouve tudo com muita atenção...seus olhos parecem crianças sufocadas tentando comer as próprias mãos. A vontade de sair pela casa, correndo, é tão forte que faz o sangue ferver e provocar sensações de movimento e liberdade. Mas tudo continua imóvel, até os pensamentos mais velozes não passam de agonias respirátórias. Uma vez por semana, nas sessões de exercícios físicos que fazem Maria Clara resgatar tremores e sentir o peso da alma, a casa se enche de luz. Os móveis e os objetos brilham e desenham lábios pelos corredores de colunas brancas, repletas de gravuras. Dona Guilhermina veste-se elegantemente e adentra pela sala trazendo rosas e votos de melhoras. Os vizinhos rezam e forram a beira do rio com barquinhos e bichinhos de papel.
GURGEL DE OLIVEIRA