segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

"MEMÓRIAS DE ADRIANO" - (Para o amigo Adriano Padilha)

Já faz algumas décadas que o céu não é mais o mesmo aos olhos do menino que brincava com as nuvens. As noites na cidade grande nos impedem de olhar estrelas e o progresso que nos reveste apagou o lúdico e o que restou da poesia. Estive algumas vezes com o menino guardião das galáxias e das figuras de algodão que dançam sobre as nossas cabeças. A bordo de conversas sobre deuses e SEMIÓTICA, passamos algumas tardes construindo navios e outros meios de transporte que nos levassem à Idade Média e a outros tempos imemoriais...Só para não deixar que o anoitecer, de dentes afiados e retalhos de verdade, tirasse nossas fantasias onde os sábios, sarcófagos e Afrodite, nos faziam acreditar que o mundo não é apenas uma cama forrada com gelo e circundada por fantasmas e outras criaturas da escuridão. Numa tarde de verão, quando o sol anunciava a sua despedida por mais um dia de trabalho, fomos ao castelo onde vive a família do menino e uma caixinha de preciosidades. Comemos e conversamos muito. Observei a cidade do alto e me senti protegido dos estômagos indigestos que se escondem no aconchego das esquinas. Cheguei ao baile e já era noite. O navio era branco como o céu de outros verões. No rosto, uma máscara inspirada nos carnavais de Veneza. Nas mãos, três cristais encantados, antigos moradores da caixinha de preciosidades, só para não perder a poesia.
Gurgel de Oliveira

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

"Tempo de Baile" - Para Mourão Cavalcante

Um beijo de princesa está colado ao teto de madeira da nossa casa. Poemas de escritores não conhecidos se desprendem do pijama e enchem os vasos noturnos de angústia e tardes não dormidas. O refluxo rasga o estômago da criança morta e a sala principal anuncia velórios só para matar o tempo. O nome do livro é Tempo de Baile! O escritor retira frases de cidades frias e recria assassinatos nos sítios históricos que descansam no mapa. Para qual dos lados teremos que olhar agora? Existem sepulturas estampadas nos doces de sofrimento de Cora Coralina e as pontes de Goiás não protegem mais os rios. Somos os donos dos nossos fantasmas que só adormecem depois da meia noite, quando o Sol se esconde embaixo do travesseiro com medo dos ataques da Lua. É tempo de bailar o tempo e esconder as máscaras nos rostos que não dizem verdades. Existe mesmo a verdade ou tudo não passa de um sonho embriagado pela saliva da dança? Em qual dos bailes perdemos o jeito de dançar e lamber feridas abertas? Perguntemos ao escritor... Foi ele o criador da festa.
Gurgel de Oliveira